Sorrir faz bem à saúde, exercita os músculos da face e aumenta a imunidade. O ato de sorrir garante, sobretudo, mais qualidade aos relacionamentos sociais e afetivos. Não é por acaso que o dito popular “rir é o melhor remédio” nunca caiu em desuso. Assim como não deve ser casual o fato da Odontologia brasileira receber hoje, do poder público, um investimento sem precedentes na sua história. Um investimento que está ajudando a democratizar o acesso de homens e mulheres a um sorriso saudável e, conseqüentemente, a uma vida mais digna.
Cidadania em saúde bucal, eis um resgate histórico que começa a ganhar contornos mais consistentes. E já não era sem tempo. O Brasil, afinal, tem na Odontologia uma síntese dos paradoxos com os quais convive há séculos. A desigualdade registrada na renda e na moradia, bem como no acesso (ou seja, na falta de) à alimentação, saúde, educação e emprego, se reflete no abismo hoje existente entre o avanço técnico-científico da odontologia e a imensa maioria de brasileiros sem-dentista – que, em muitos casos, em função da ausência quase total de dentes, tornam-se sem-sorriso também. Segundo o SB Brasil, o mais completo levantamento epidemiológico já feito no país (concluído em 2004), menos de 22% da população adulta e menos de 8% dos idosos apresentam as gengivas sadias. Também pudera: quase 28 milhões nunca visitaram um dentista (15,9% da população) e metade dos brasileiros não têm sequer uma escova de dente em casa – segundo, respectivamente, o PNAD/IBGE (2003) e o SB Brasil (2004).
Mas deixemos para voltar mais adiante à esfera política da saúde bucal. Vejamos agora a contribuição da ciência odontológica para a estética do sorriso.
A estética desperta emoção e paixão nas pessoas. Emoção porque causa a perplexidade da beleza, o prazer visual; e paixão porque a beleza tem significado diferente para cada um, nem todos se extasiam com o mesmo. Aqui reside exatamente a complexidade da definição do que é estético, do que é belo e do que é harmônico. Existem aqueles que acreditam que a beleza é um dom divino e que, portanto, não é possível a ninguém construí-la. Outros crêem que, sim, beleza e harmonia estão tão próximas que podem ser construídas. A prova maior seria a arquitetura, a engenharia, e todos aqueles que com obras são capazes de modificar a rotina de locais e paisagens. Estes são vistos como os criadores das formas.
Nós da Odontologia, arquitetos do sorriso e engenheiros das proporções dento-faciais, dispomos de recursos teóricos e práticos para construir esta harmonia, o que resulta em beleza. Com muita freqüência, em palestras, cursos, textos, têm se abordado a questão estética como um novo rumo da Odontologia. De um lado, é verdadeiro na medida em que os dentes passaram a ter mais valor. Ninguém tem beleza facial sem os dentes. Mas, por outro lado, os conceitos, as fórmulas e os princípios estéticos hoje adotados, notadamente na Dentística e na Prótese, são originários da Prótese Total, onde a perda de todos os dentes exigia por parte do profissional habilidade visual e técnica para reproduzir o imaginário, o gosto do paciente – nem sempre de acordo com aquilo que era o seu aspecto dento-facial. Dentes brancos sempre foram um enigma, assim como dentes pequenos. O conceito emitido por Fischer & Frush, em 1956, em que a forma da face correspondia à forma das arcadas e dos dentes, permitiu o surgimento do fator FRD (face, rebordo e dente), a partir do qual seria possível restabelecer a aparência do paciente. Os aspectos relativos à característica física, como masculino e feminino, também se somaram a itens importantes, e daí surgiu outro conceito para a estética: o SPI (sexo, personalidade e idade).
Com o passar do tempo, especialmente a partir dos anos 70, a adesão possibilitou as restaurações mínimas, e por isso mesmo a preservação da estrutura dentária tornou-se uma meta para a estética, especialmente pelo fato das restaurações poderem ser brancas, em função do aprimoramento das resinas compostas, e das formas de aderi-las ao dente. A partir daí, a perspectiva de reconstruções estéticas se tornou cada vez mais evidente. Não pairam dúvidas sobre quais razões levaram a Odontologia a caminhar na direção de um modelo preventivo e preservativo: primeiro, pela constatação da importância dos dentes para a saúde e a beleza facial; segundo, por que a indústria criou os materiais, e a Odontologia viabilizou a tecnologia para que tal avanço se tornasse realidade. Para completar, a estrutura dentária passa a ser valorizada, criando as bases para que a doença cárie deixe de ser a única forma de tratamento da Odontologia, abrindo caminho para que nós, cirurgiões-dentistas, possamos exercer a mudança, a transformação ou a preservação de forma, cor e tamanho. Além disso, outros princípios foram adicionados à Odontologia, de forma a tornar possível qualquer tipo de intervenção baseada em evidências clínicas e em avaliações do comportamento destas restaurações.
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A mudança conceitual do amálgama para restaurações brancas foi proporcionada pelas formas adesivas e por resinas que passaram a ter comportamento clínico satisfatório.
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O sucesso desta técnica consolidou de uma vez por todas, no imaginário da população, a relevância dos dentes para a auto-estima. O fechamento dos buracos negros e a construção de uma prótese adesiva direta mostraram que é possível recriar a harmonia.
Desta forma, baseados em RUFENACH, e mais recentemente em MONDELLI et al, é possível reconstruir a harmonia ausente e “restaurar” a auto-estima do paciente.
Por falar em “restaurar a auto-estima do paciente”, gostaria de voltar ao viés político da saúde bucal com uma pergunta:
De que servirá a evolução da odontologia no campo da estética se ela não se traduzir na democratização do seu acesso?
Por que nos contentarmos em devolver a poucos a auto-estima de um sorriso belo e harmônico? Afinal, a ciência não existe para servir a todos?
São perguntas que precisamos nos fazer, sejamos profissionais experientes, em início de carreira ou estudantes. Indagações, aliás, que são feitas tantas vezes por cidadãos que não compreendem porque a oportunidade de um sorriso perfeito permanece ainda restrita à elite econômica do país. Por que não distribuir esta “riqueza”? Por que, mesmo considerando o alto preço de alguns materiais e equipamentos, não investir na criatividade de modo a possibilitar o acesso deste “bem” a um número maior de pessoas?
Nos anos 70, o então ministro da Economia Delfim Neto afirmava que era preciso esperar o “bolo” da riqueza do país crescer – que na época registrava taxas de crescimento de 10% ao ano! – para depois dividi-lo com os mais pobres. Hoje, uma tese como esta é indefensável. Não resta dúvida que o melhor é crescermos por igual, tanto quanto possível. Os indicadores comprovam isso, ao registrar o quão estratégico foi para a economia o recente aumento do salário mínimo e a abertura do micro-crédito, entre outras medidas voltadas para os cidadãos de baixa renda. Nesse sentido, promover para a maioria da população a atenção básica e especializada em saúde bucal, como vem fazendo o governo federal de forma sistemática desde 2003, através do programa Brasil Sorridente, revelou-se um feito histórico.
De 2003 a 2006 o país vem assistindo a um crescimento geométrico na implantação de uma política pública de saúde bucal. Foram criadas 9 mil equipes de Saúde Bucal nos moldes do Saúde da Família, totalizando 14 mil que cobrem cerca de 70 milhões de pessoas. No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) foram produzidas 250 mil próteses dentárias entre janeiro de 2003 e junho de 2006, com 146 novos Laboratórios Regionais de Prótese Dentária. Sem falar na criação do CEO, o Centro de Especialidades Odontológicas que oferece atendimento em endodontia, periodontia e outras especialidades. Nos últimos três anos 440 CEOs foram criados, tendo sido responsáveis por mais de 4 milhões de procedimentos em todo o país. Os efeitos desse crescimento na oferta em saúde bucal só poderão ser medidos de maneira precisa em um novo levantamento epidemiológico.
Infelizmente, na saúde suplementar a odontologia não apresenta números tão alvissareiros. Hoje, 12,92% dos cerca de 40 milhões de usuários de planos de saúde têm cobertura odontológica, o que, em se tratando de população brasileira, corresponde a 3,6%. Mas a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) deu um passo importante, ao iniciar a avaliação da qualidade das operadoras de planos através do Programa de Qualificação da Saúde Suplementar. Há o que melhorar, mas a direção está correta.
Mas o mais importante mesmo, nesta boa luta, é saber que nós da Odontologia estamos preparados para levar a todos a harmonia e a beleza do melhor sorriso. A despeito dos problemas internos que enfrentamos, como a má distribuição de profissionais e o excesso de cursos de graduação, a classe odontológica tem amplas condições de garantir a democratização da mais genuína manifestação de alegria. Bastam o apoio do poder público e uma postura mais madura da saúde suplementar.
No momento em que digito este texto – novembro de 2006 – o Brasil tem 210.864 cirurgiões-dentistas em ação. Destes, 3.664 são especialistas em Dentística Restauradora; 365 em Dentística; 5.757 em Prótese Dentária; e 7.405 em Ortodontia e Ortopedia facial – para citar apenas algumas das especialidades odontológicas que lidam mais diretamente com a preservação ou reconstrução da estética do sorriso.
Ou seja, profissionais em número à altura da importância do sorriso para a vida do brasileiro.
Obras Consultadas:
1 – Projeto SB Brasil – Condições de Saúde Bucal da População Brasileira – Coordenação de Saúde Bucal/Departamento de Atenção Básica do Ministério da Saúde – dtr2004.saude.gov.br/dab/saudebucal
2 – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD)/Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2003
3 – HEYMANN, H. – The conservative esthetic dentistry. J.Dent. Ass., 14 E – 22 E, 1987
4 – RUFENACH,c.r. – FUNDAMENTOS OF Esthetics. Chicago, Quintessence books, 1992
5 – MONDELLI, J. et al – Estética e Cosmética em clínica Integrada restauradora. Editora Santos, são Paulo, 2003.
6 – Programa de Qualificação da Saúde Suplementar – Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) – www.ans.gov.br
7 – Banco de dados do Conselho Federal de Odontologia (CFO) – www.cfo.org.br
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